Argel se diz “destemido” e confia no êxito do Vitória

Argel se diz “destemido” e confia no êxito do Vitória

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Ao ser perguntado se permanece confiante que o Vitória não será rebaixado –  discurso que apresentou ao ser contratado há 25 dias -, Argel Fucks abre os braços, faz uma expressão facial que sugere um “é óbvio” e afirma: “Quando assumi o time, ele era o 18º colocado do Brasileiro. Hoje, é o 14º. Então, se eu já era otimista…”. É assim que, nesta entrevista ao A TARDE, o técnico se mostra: confiante e destemido. Diferente da cara de brabo que tinha nos tempos de zagueiro, Argel, na conversa, chega a ser dócil. Mas, claro, sem perder a conhecida seriedade. A personalidade, acolhedora e determinada, foi construída na juventude. Aos 18 anos, de origem pobre no interior do Rio Grande do Sul, ele assumiu a mãe e o irmão mais novo, pois perdeu o pai, assassinado, e a irmã, em acidente. “Sinceramente, não tenho medo de mais nada”.

O time vinha de quatro bons jogos com você, mesmo quando perdeu do Botafogo. O que ocorreu contra o Grêmio?

Se você analisar o jogo do Grêmio, foi parecido com o do Botafogo. O adversário veio jogar recuado, no erro nosso. E perder do Grêmio por 1 a 0, mesmo em Salvador, é normal. Assim como foi  no primeiro turno o Vitória ter ido lá e ganhado por 2 a 1. Agora, claro que a gente não fez uma partida tecnicamente boa. Na parte de atitude,  vibração e transpiração, nosso time teve tudo isso. Mas, não criamos tantas oportunidades. Campeonato Brasileiro é muito difícil. Vitória e Grêmio é um clássico. E nós ainda tivemos um déficit de qualidade com a perda do Marinho (lesionado no primeiro tempo).

Você ganhou os dois jogos que fez fora de casa: 1 a 0 no Inter e 4 a 1 na Chapecoense.  Prefere atuar como visitante?

Os times hoje jogam da mesma forma, num sistema de jogo 4-2-3-1. O São Paulo veio aqui e jogou assim (Vitória venceu por 2 a 0 no Barradão há duas semanas).  Agora, o que acontece é que, quando você joga fora de casa, você recua sua marcação e força o adversário a propor o jogo. Dessa forma, ele se expõe. Agora, seu eu pudesse escolher, queria jogar 100% das partidas dentro de casa (risos).

Já definiu o substituto de Marinho, que será desfalque nos próximos jogos?

Trabalho com três opções: Vander, David e Cárdenas. Com Vander e David, posso manter o esquema 4-2-3-1, que eu gosto muito. Ou posso passar para o 4-4-2, com dois volantes e dois meias. Cárdenas e Tiago Real seriam esses meias armadores.

Então, Tiago Real segue na equipe (ele foi titular nas últimas duas partidas em substituição a Cárdenas, que estava lesionado)?

A princípio, Tiago fica na equipe, mas veja bem: estou dizendo que tenho uma vaga no time e três jogadores que estiveram fora da última partida têm chances de jogar. Mas eu posso armar, por exemplo, um time com Cárdenas, David, Zé Love e Kieza. Tiago não jogaria. A definição na verdade é: tenho quatro jogadores: Cárdenas, Tiago Real, David e Vander. Desses, dois jogam e dois ficam no banco.

Você chegou discursando que a meta era atingir 44 pontos para escapar da queda. Com as últimas rodadas, mantém ou aumenta a estimativa? Há pessoas falando em 46…

Em Campeonato Brasileiro, você tem um número, geralmente 44 ou 45. Mas, já se salvou time com 42 pontos, 41 pontos… Já houve time que precisou de 45 para não cair. Agora, nunca um time caiu com 46. Então, nós precisaríamos de três vitórias e um empate em nove jogos (o Vitória é o 14º colocado com 35 pontos). É uma meta atingível. Mas eu não quero ficar fazendo número. Da Chapecoense (11º com 38) para baixo, está tudo um bolo só.

Quando você chegou, se disse confiante que o Vitória não cairia, pois conhecia o elenco e a estrutura do clube. Passadas cinco rodadas, o discurso segue o mesmo? Estaria ainda mais confiante?

Olhe, no dia que eu cheguei, peguei o time na zona do rebaixamento… Então, se já era otimista… Claro que o time ainda tem que evoluir, mas eu peguei o Vitória em 18º e hoje ele é o 14º.

No sul do país, você é conhecido como um treinador especialista em problemas emergenciais, mas  que ainda carecia de trabalhos a longo prazo. Fica chateado com essa fama?

Bombeiro, né, como dizem? Então, vou falar um coisa: para mim, no futebol, tudo são números. No Internacional, eu fiquei um ano (entre 2015 e 2016). É um trabalho longo, né? Eu terminei o campeonato em 5º lugar e havia pegado o time em 12º. Depois, ganhamos dois títulos: a Recopa gaúcha e o hexacampeonato gaúcho. E antes de eu chegar ao Internacional, estava no Figueirense há mais de um ano. Então, não é verdade o que falam. No Figueirense, fomos campeões catarinenses. Quando eu assumiu o time (em julho de 2014), ele era lanterna do Brasileiro, mas nós o salvamos do rebaixamento.  Agora, não me chateia o que as pessoas falam. Para mim, futebol é resultado. É preto no branco. Contra números, não há argumentos. No Inter, nos últimos seis anos, eu fui o segundo treinador que passou mais tempo lá. Só perdi para Abel Braga. Fiquei mais tempo que Fernandão, Falcão, Dorival Júnior, Diego Aguirre… E você não fica tanto tempo num cargo de um grande clube se não apresentar resultados.

Ter, aos 18 anos, perdido o pai assassinado e, pouco depois, a irmã num acidente de carro, foi o que te fez um cara mais forte para superar adversidades?

Eu vim de uma família muito pobre. Meu pai era mecânico, minha mãe era faxineira. Seu não fosse o futebol, eu não teria muito futuro. Joguei (foi zagueiro nas duas décadas passadas) na Seleção e em oito grandes clubes: Palmeiras, Santos, Inter, Cruzeiro… O futebol me deu tudo na vida. Perdi meu pai assassinado. Minha irmã, num acidente de carro. Aos 18 anos, eu tive que assumir minha família, assumir  meu irmão, que hoje é cardiologista.  Tenho minha esposa e meus dois filhos, mas cuido de minha mãe até hoje. Cuido do meu sogro, da minha sogra. A vida me ensinou a ser perseverante. Minha história de vida me ensinou muito na minha formação como homem. Agora, problemas particulares todo mundo tem. As tristezas que eu tive na minha vida, com a perda  do meu pai e da minha irmã, virou o combustível para que eu conquistasse o que eu conquistei. Eu precisava correr atrás para dar uma situação tranquila para minha família.  As tragédias que tive na juventude me fizeram um cara mais forte. Sinceramente, não tenho medo de nada. Sou um cara muito mais forte e melhor porque cresci no meio da tragédia, da adversidade e da pobreza.

Como foi criar seu irmão?

Quando perdemos nosso pai, ele tinha 13 anos e jogava na escolinha do Inter. Eu falei a ele: “você tem condição de virar profissional, mas não sei se para jogar em alto nível. Eu só tenho o segundo grau e mais nada. Então, burro, na família, já basta eu (risos). Eu teria o maior orgulho de ter um irmão médico, um doutor. Se você quiser, pago seus estudos”. Aos 17 anos, ele parou de jogar, foi fazer cursinho, passou no vestibular, formou em medicina e hoje é cardiologista. Trabalha como gerente administrativo do hospital de Rio Pardo, cidade próxima a Porto Alegre. A mensalidade e tudo o que envolveu os estudos ficaram por minha conta. Faculdade de medicina é cara. Eu investi uma quantia muito alta, mas para mim foi um grande orgulho porque formei médico o único irmão vivo que tenho.

A TARDE
FOTO: DIVULGAÇÃO

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